Hoje não! Hoje não! Hoje sim…

Foto: Daniel Malucelli/Cascavel

O sonho esteve perto de se concretizar, mas há algumas coisas óbvias no mundo da bola que sempre surgem para decidir os rumos de grandes jogos como o ocorrido no sábado. Depois que algo tão evidente se concretiza todos nós ficamos atônitos com a rapidez com que se desfaz um sonho e pensamos: “Isso não poderia ter acontecido mesmo, era óbvio que…”. Minha missão aqui não é ser o capitão óbvio e sair por aí apontando erros de uns e de outros, mas é importante notarmos as ironias nem tão irônicas do futebol, ou melhor, é importante notarmos o sarcasmo deste esporte ingrato. Em um dia como esse o futebol sorri ao observar a cor abandonando a face de cada torcedor aurinegro, e sim, ele ri na cara de cada torcedor. Desculpe se estou a destronar um deus, quando as coisas não dão certo costumo me tornar um ateu futebolístico e um sentimento profano me invade, causando esse amargor com tudo o que envolve o mundo da bola. No sábado senti o futebol como uma força potente que nos engana o tempo inteiro, a obviedade com que alguns destinos são definidos me fazem pensar se isso tudo não é apenas um roteiro escrito para entreter o próprio Futebol.

Seria muito mais fácil lidar com uma eliminação no tempo normal, uma derrota por 2 a 0 e que aos 40 minutos da segunda etapa você já passou a aceitar o seu destino, o que não me cabe é ter seu destino indefinido até o ultimo pênalti batido. Foram 180 minutos de um jogo que inúmeros gols perdidos que vão ficar martelando na cabeça do torcedor até o início da próxima temporada. A Sorte (mais um personagem desse roteiro), sorriu para o torcedor cascavelense quando o atacante paranista isola a bola em uma cobrança de pênalti no inicio da segunda etapa, foi o primeiro momento que olharam para a Má Sorte recente nos confrontos eliminatórios e disseram em alto e bom tom “Hoje não!”. Com a partida controlada, viu-se a tensão crescer no lado tricolor, o Cascavel ainda criou uma ótima chance de contra-ataque, mas como foi de costume nessa temporada a equipe não soube finalizar e perdeu a chance que provavelmente carimbaria a classificação para a fase seguinte. André Luiz fazia mais uma exibição de gala, confiante e seguro estava em todas as bolas, foi o dia dele, mas infelizmente ninguém lembra dos heróis que defendem o estandarte do derrotado.

Quando encerraram-se os noventa minutos, o plano do professor Tcheco parecia ter dado certo, o Cascavel passou incólume da pressão de uma Vila Capanema apinhada de gente, a pressão estava toda nas costas dos jogadores adversários, tudo levava a crer que seria o dia do Cascavel. Enfim, o aurinegro chegaria a terceira fase da competição nacional. Na disputa de pênaltis novamente André Luiz foi monstruoso, frio e gigante fez o torcedor soltar novamente o grito de “Hoje não!” para a Má Sorte, porém entrou em campo a Obviedade, aquele personagem malandro que parece não ser útil, mas que no fim das contas é quem desenrola o roteiro. Quando o criticado Gama rumou para a área onde estavam sendo cobradas a penalidades, o torcedor já sentiu uma pontada no coração. Com uma exibição bastante questionável em boa parte da temporada, Gama parecia estar recuperando o seu futebol, porém o torcedor ainda mantinha algumas reservas para com ele, o Óbvio decidiu usá-lo para dar um novo rumo para o funeral que se desenhava na Vila Capanema. O camisa 8 bateu mal e deu a chance de Felipe iniciar sua consagração, Felipe não titubeou e impediu o Paraná de ser despachado da série D, o estádio explodiu e o Futebol sorriu… O torcedor do Cascavel sentiu a Má Sorte se aproximar e sua presença gélida foi sentida por cada aurinegro, a certeza da eliminação cresceu e parecia ser só questão de tempo. O Óbvio novamente entrou em cena e escolheu Léo Itaperuna para bater a penalidade fatal. Destaque em 2021, o camisa 11 não conseguiu emplacar um bom futebol em 2022, foram poucos gols e pouquíssimas grandes exibições, quando ele partiu para a cobrança era óbvio que a odisseia do Futebol Clube Cascavel acabaria por ali. Enquanto Léo Itaperuna corria até a bola, o torcedor que já havia dito duas vezes para a Má Sorte “Hoje não, hoje não!” engoliu seco e vendo o sorriso maldoso e triunfante dela, que disse num tom fúnebre: “Hoje sim…”.

Caio Guilherme
Estudante de jornalismo e dono perfil @portalfcc no Twitter.

Artigos Relacionados

Últimos Artigos